Imperialismo
A partilha da África e da Ásia pelas potências industriais: interesses econômicos, discursos racistas, resistências dos povos colonizados e consequências que chegam até hoje.
Entre 1870 e 1914, um punhado de potências industriais passou a controlar a maior parte do planeta. Em poucas décadas, quase toda a África e grande parte da Ásia e da Oceania foram divididas entre países europeus, os Estados Unidos e o Japão. O Imperialismo transformou economias, fronteiras e sociedades inteiras, foi justificado por discursos racistas, enfrentou resistências em todos os continentes e deixou marcas — fronteiras artificiais, dependência econômica, desigualdades — que continuam presentes no mundo atual.
O colonialismo dos séculos XV a XVIII, ligado às Grandes Navegações, concentrou-se sobretudo na América e baseou-se no mercantilismo. O Imperialismo do século XIX, também chamado de neocolonialismo, voltou-se principalmente para a África e a Ásia e esteve ligado às necessidades do capitalismo industrial. A palavra "imperialismo" também é usada de forma mais ampla para designar qualquer política de dominação de um país sobre outros, inclusive por meios econômicos e culturais.
1. Um novo tipo de dominação
A dominação de outros povos não era novidade: desde as Grandes Navegações, portugueses, espanhóis, ingleses, franceses e holandeses haviam construído impérios coloniais. O Imperialismo do século XIX, porém, tinha características próprias. Era muito mais rápido e abrangente — em poucas décadas, mais de 90% do território africano passou ao controle europeu —, envolvia mais países, como Alemanha, Itália, Bélgica, Estados Unidos e Japão, e estava diretamente ligado às necessidades da economia industrial.
Também mudaram as formas de dominação. Além das colônias, governadas diretamente pela metrópole, havia protetorados, em que governantes locais permaneciam no poder sob controle estrangeiro, e áreas de influência, em que as potências dominavam a economia sem ocupar formalmente o território, como na China e na América Latina.
2. As motivações econômicas
A Segunda Revolução Industrial, estudada na página sobre a Revolução Industrial, criou uma demanda enorme por matérias-primas: algodão para as fábricas têxteis, borracha para pneus e cabos elétricos, cobre e estanho para a indústria elétrica, petróleo, além de produtos tropicais como café, cacau, chá e açúcar. As indústrias também precisavam de mercados consumidores para escoar sua produção crescente, já que os países industrializados protegiam seus mercados com tarifas.
Os bancos e as grandes empresas buscavam ainda áreas para investir capitais com lucros elevados, construindo ferrovias, portos, minas e plantações em outros continentes. Havia também motivos estratégicos: controlar rotas marítimas, portos de abastecimento de carvão para os navios a vapor e passagens como o Canal de Suez, inaugurado em 1869, que encurtou a viagem entre a Europa e a Ásia.
3. Críticos da época: Hobson e Lenin
Esses aspectos econômicos foram destacados por críticos da própria época. O economista inglês John Hobson, em Imperialismo: um estudo (1902), argumentou que a expansão colonial beneficiava sobretudo uma minoria de financistas e industriais, enquanto os custos recaíam sobre o conjunto da sociedade.
O revolucionário russo Vladimir Lenin, em 1916, definiu o Imperialismo como a "fase superior do capitalismo", marcada pelo domínio dos grandes monopólios, pela fusão entre capital bancário e industrial e pela disputa entre as potências pela divisão do mundo — disputa que, segundo ele, levaria inevitavelmente à guerra. Outros historiadores, porém, chamam a atenção para fatores políticos e culturais, como mostra o debate apresentado no final desta página.
4. A Conferência de Berlim
Em 1880, a presença europeia na África ainda se limitava basicamente a algumas áreas litorâneas, à Argélia francesa, à colônia do Cabo, no extremo sul, e a antigas possessões portuguesas. A corrida pelo interior do continente, porém, acelerava-se — impulsionada pelas explorações de viajantes como Henry Morton Stanley e pelos interesses do rei belga Leopoldo II — e gerava atritos entre as potências.
Para evitar uma guerra entre elas, o chanceler alemão Otto von Bismarck convocou a Conferência de Berlim, realizada entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885. Representantes de 14 países, entre europeus e os Estados Unidos, estabeleceram regras para a ocupação do continente — sem que nenhum africano fosse convidado. O princípio central acordado foi o da ocupação efetiva: para reivindicar um território, uma potência precisava ocupá-lo de fato e comunicar as outras.
5. A partilha da África
O resultado foi uma corrida desenfreada, a chamada "partilha da África". As fronteiras foram traçadas em gabinetes europeus, muitas vezes em linhas retas sobre mapas, sem respeitar a distribuição de povos, línguas, reinos e rotas comerciais africanas: grupos rivais foram reunidos em uma mesma colônia, e povos aparentados, separados por fronteiras. Em 1914, apenas a Etiópia e a Libéria permaneciam independentes.
Reino Unido e França ficaram com as maiores áreas. O sonho britânico era ligar o Cairo, no Egito, à Cidade do Cabo, no sul, por uma ferrovia; o francês, unir o Senegal ao mar Vermelho. Alemanha, Itália, Portugal (com Angola e Moçambique), Espanha e Bélgica também tiveram suas colônias. A disputa entre britânicos e franceses quase levou a uma guerra no incidente de Fachoda, no Sudão, em 1898.
| Potência | Principais domínios (c. 1914) |
|---|---|
| Reino Unido | Índia, Egito, Sudão, Quênia, Nigéria, África do Sul, Austrália, Canadá |
| França | Argélia, Tunísia, Marrocos, África Ocidental e Equatorial, Madagascar, Indochina |
| Alemanha | Camarões, Togo, Sudoeste Africano (Namíbia), África Oriental (Tanzânia) |
| Bélgica | Congo |
| Portugal | Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe |
| Itália | Líbia, Eritreia, Somália |
| Estados Unidos | Filipinas, Porto Rico, Guam, Havaí |
| Japão | Taiwan, Coreia |
6. O Congo de Leopoldo II
A Conferência de Berlim reconheceu o chamado Estado Livre do Congo como propriedade pessoal do rei Leopoldo II, da Bélgica. Ali se estabeleceu um dos regimes mais brutais da história colonial: para extrair borracha e marfim, a população era submetida a trabalho forçado, e quem não cumpria as cotas sofria castigos terríveis, incluindo mutilações. Milhões de pessoas morreram em consequência da violência, da fome e das doenças.
As denúncias de missionários, jornalistas e diplomatas — como o relatório do cônsul britânico Roger Casement e a campanha do jornalista Edmund Morel — levaram a uma mobilização internacional, e em 1908 o governo belga assumiu a colônia, tirando-a das mãos do rei. O caso do Congo tornou-se um símbolo da violência colonial e é considerado um dos primeiros grandes movimentos internacionais em defesa dos direitos humanos.
7. Três justificativas usadas pelos europeus
Para legitimar a dominação diante de suas próprias populações, os europeus recorreram a discursos que hoje são reconhecidos como profundamente racistas. Três deles foram especialmente influentes:
- O "fardo do homem branco" — expressão popularizada por um poema do escritor britânico Rudyard Kipling, publicado em 1899, que apresentava a colonização como uma missão sacrificada dos brancos para "civilizar" povos considerados atrasados. Na França, falava-se em "missão civilizadora". Esse discurso transformava a exploração em suposto ato de generosidade e ignorava que os povos africanos e asiáticos tinham suas próprias civilizações, Estados, religiões, artes e conhecimentos, muitos deles milenares, como mostram as páginas sobre o Egito Antigo, a Índia e a China.
- O darwinismo social — uma distorção das teorias de Charles Darwin sobre a evolução das espécies, aplicada às sociedades humanas por pensadores como Herbert Spencer. Segundo essa visão, as sociedades e as "raças" estariam em competição, e as mais "aptas" teriam o direito de dominar as outras. Somava-se a isso o chamado "racismo científico", que tentava classificar e hierarquizar os seres humanos por características físicas. Essas ideias, hoje completamente refutadas pela ciência, justificaram a violência colonial e chegaram a produzir as "exposições humanas", em que pessoas de povos colonizados eram exibidas em zoológicos e feiras na Europa.
- O nacionalismo e o prestígio — ter colônias tornou-se sinal de poder e grandeza nacional. Para países recém-unificados, como a Alemanha e a Itália, conquistar territórios era uma forma de afirmar seu lugar entre as grandes potências; para a França, derrotada pela Prússia em 1871, era uma maneira de recuperar o orgulho nacional. A imprensa popular, os livros escolares e as exposições coloniais exaltavam as conquistas e ajudavam a construir apoio da população a essas políticas.
8. A Índia britânica
Na Ásia, a joia do Império Britânico era a Índia. Controlada inicialmente pela Companhia Britânica das Índias Orientais, passou ao domínio direto da Coroa após a grande Revolta dos Sipaios (1857–1858), iniciada por soldados indianos a serviço dos britânicos e duramente reprimida. Em 1876, a rainha Vitória recebeu o título de imperatriz da Índia.
A indústria têxtil indiana, uma das mais importantes do mundo antes da industrialização, foi arruinada pela concorrência dos tecidos ingleses, e a economia foi reorganizada para exportar algodão, chá, juta e ópio. Os britânicos construíram ferrovias, portos e escolas, mas sobretudo a serviço de seus interesses. Fomes devastadoras atingiram o país no final do século XIX, agravadas pela política colonial. Em 1885, foi fundado o Congresso Nacional Indiano, que, mais tarde, sob a liderança de Mahatma Gandhi, conduziria a luta pela independência.
9. A China e as Guerras do Ópio
A China, estudada também na página sobre a China Antiga, não chegou a ser dividida em colônias, mas foi forçada a se abrir. Nas Guerras do Ópio (1839–1842 e 1856–1860), o Reino Unido impôs pela força o comércio da droga produzida na Índia, obteve Hong Kong e assinou os chamados "tratados desiguais", que deram às potências estrangeiras portos abertos, privilégios comerciais e o direito de seus cidadãos serem julgados por tribunais próprios.
Nas décadas seguintes, o país foi dividido em áreas de influência de diversas potências. A reação popular explodiu na Revolta dos Boxers (1899–1901), reprimida por uma coalizão de oito potências. O enfraquecimento da dinastia Qing contribuiu para a revolução que proclamou a República da China em 1912. No Sudeste Asiático, a França dominou a Indochina — atuais Vietnã, Laos e Camboja — e os Países Baixos, a Indonésia.
10. O Japão: de alvo a potência imperialista
O Japão seguiu um caminho singular. Pressionado a abrir seus portos pelos Estados Unidos em 1854, o país realizou, a partir da Restauração Meiji (1868), uma rápida modernização: aboliu os privilégios dos samurais, criou um exército e uma marinha modernos, construiu ferrovias e indústrias e adotou instituições inspiradas no Ocidente.
Em poucas décadas, o Japão tornou-se ele próprio uma potência imperialista. Venceu a China (1894–1895), ficando com Taiwan, e derrotou a Rússia (1904–1905) — a primeira vitória de uma potência asiática sobre uma europeia na era moderna, que teve enorme repercussão no mundo colonizado. Em 1910, anexou a Coreia, iniciando uma dominação que duraria até 1945.
11. Os Estados Unidos e a América Latina
Na América, os Estados Unidos ampliaram sua influência com base na Doutrina Monroe (1823), resumida no lema "a América para os americanos". Após vencer a Espanha em 1898, passaram a controlar Porto Rico, as Filipinas e Guam e a exercer forte influência sobre Cuba; no mesmo ano, anexaram o Havaí.
Com a política do "Big Stick" ("grande porrete"), do presidente Theodore Roosevelt, os Estados Unidos intervieram militarmente em vários países da América Central e do Caribe e garantiram o controle do Canal do Panamá, inaugurado em 1914. Na América do Sul, inclusive no Brasil, a influência das potências foi sobretudo econômica: empréstimos, investimentos britânicos em ferrovias e portos e a exportação de produtos primários, como café e borracha, tornavam as economias latino-americanas dependentes dos mercados industrializados.
- Documentos oficiais, tratados e atas, como a Ata Geral da Conferência de Berlim.
- Relatos de exploradores, missionários, administradores e militares coloniais.
- Fontes produzidas pelos povos colonizados: tradição oral, cartas, jornais e memórias.
- Fotografias, mapas, propaganda colonial e objetos levados para museus europeus.
12. As resistências
Os povos colonizados resistiram com as armas e estratégias que tinham à disposição. Os zulus derrotaram os britânicos na Batalha de Isandlwana (1879) antes de serem vencidos; Samori Touré, na África Ocidental, enfrentou os franceses por quase duas décadas; e o imperador Menelik II, da Etiópia, derrotou o exército italiano na Batalha de Adwa (1896), garantindo a independência de seu país.
A repressão foi muitas vezes extremamente violenta. No Sudoeste Africano Alemão, atual Namíbia, a revolta dos povos herero e nama (1904–1908) foi respondida com um extermínio hoje reconhecido como o primeiro genocídio do século XX. Na África Oriental Alemã, a revolta Maji Maji (1905–1907) também foi esmagada. Além da luta armada, houve formas cotidianas de resistência, como fugas, sabotagens, preservação de línguas e religiões e, mais tarde, a organização de movimentos nacionalistas por líderes formados nas próprias escolas coloniais.
13. Economia, cultura ou disputa entre potências? O que os historiadores discutem
O historiador britânico Eric Hobsbawm, em A era dos impérios, explica a corrida colonial do final do século XIX sobretudo por razões econômicas: as potências industriais precisavam de novos mercados, matérias-primas baratas e áreas para investir capital, e a competição por essas vantagens teria sido o motor central da partilha da África e da Ásia.
O crítico literário palestino-americano Edward Said, em Cultura e imperialismo, argumenta que a explicação econômica é insuficiente: o Imperialismo dependeu também de uma justificativa cultural — romances, pinturas, relatos de viagem e obras acadêmicas construíram a imagem dos povos colonizados como "atrasados" ou "incapazes de se autogovernar". Já o historiador Thomas Pakenham, em The scramble for Africa, reconstrói em detalhe as expedições, as rivalidades diplomáticas e as decisões tomadas na Europa que redesenharam as fronteiras de um continente inteiro sem consultar seus habitantes. Historiadores africanos, por sua vez, destacam o protagonismo dos povos colonizados, suas estratégias de negociação e resistência e a continuidade de suas próprias histórias.
14. Consequências e permanências
As consequências do Imperialismo foram duradouras. As disputas entre as potências por colônias e áreas de influência aumentaram as tensões na Europa e estão entre as causas da Primeira Guerra Mundial. Nos territórios colonizados, as economias foram organizadas para exportar matérias-primas, uma dependência que persistiu após as independências; as fronteiras artificiais alimentaram conflitos que continuam até hoje; e as sociedades locais foram marcadas pelo racismo e pela desigualdade.
A maioria dos países africanos e asiáticos só conquistou a independência após a Segunda Guerra Mundial, no processo de descolonização das décadas de 1940 a 1970, que se entrelaçou com a Guerra Fria. Debates atuais sobre a devolução de objetos levados para museus europeus, sobre reparações e sobre o racismo mostram que o legado do Imperialismo continua em discussão.
15. Por que estudar o Imperialismo
Estudar o Imperialismo ajuda a compreender as origens das desigualdades entre países ricos e pobres, de muitos conflitos atuais na África e na Ásia e do próprio racismo como ideologia. O tema também ensina a desconfiar de discursos que apresentam a dominação como "missão civilizadora" e a valorizar as histórias, as culturas e as lutas dos povos que resistiram à colonização.
Para continuar a viagem pela Idade Contemporânea, siga para a página sobre a Primeira Guerra Mundial.
- Quais eram as diferenças entre o colonialismo dos séculos XVI–XVIII e o Imperialismo do século XIX?
- Por que a Conferência de Berlim é considerada um símbolo da partilha da África?
- Como o darwinismo social foi usado para justificar a dominação colonial?
- De que formas os povos africanos e asiáticos resistiram ao Imperialismo?
- Que consequências do Imperialismo ainda podem ser observadas no mundo atual?
Perguntas frequentes
O que foi o Imperialismo?
Foi a expansão das potências industriais — sobretudo europeias, além dos Estados Unidos e do Japão — sobre a África, a Ásia e a Oceania, entre 1870 e 1914, em busca de matérias-primas, mercados, áreas de investimento e prestígio.
O que foi a Conferência de Berlim?
Foi uma reunião de 14 países realizada entre 1884 e 1885, convocada por Bismarck, que estabeleceu regras para a ocupação da África, como o princípio da ocupação efetiva, sem a participação de nenhum africano.
Quais países africanos não foram colonizados?
Em 1914, apenas a Etiópia, que derrotou a Itália na Batalha de Adwa em 1896, e a Libéria permaneciam independentes.
Qual a relação entre o Imperialismo e a Primeira Guerra Mundial?
As disputas entre as potências por colônias, mercados e áreas de influência aumentaram as rivalidades na Europa e estão entre as principais causas da Primeira Guerra Mundial.
Referências para aprofundamento
- HOBSBAWM, Eric J. The age of empire: 1875-1914. London: Weidenfeld & Nicolson, 1987. (Edição em português: A era dos impérios.)
- PAKENHAM, Thomas. The scramble for Africa: 1876-1912. London: Weidenfeld & Nicolson, 1991.
- SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.