Um nacionalismo exacerbado — especialmente entre os povos eslavos dos Bálcãs, que buscavam se libertar do domínio austro-húngaro e otomano —, as disputas imperialistas por colônias e mercados que já vínhamos observando na página anterior, e um sistema rígido de alianças militares dividindo a Europa em dois blocos — a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália) e a Tríplice Entente (França, Rússia e Grã-Bretanha) — criaram uma Europa em polvorosa, uma espécie de barril de pólvora onde qualquer crise localizada poderia, em teoria, arrastar todas as grandes potências para um conflito generalizado. A corrida armamentista entre essas potências, que investiam somas cada vez maiores em exércitos e marinhas de guerra, aumentava ainda mais a tensão e a desconfiança mútua nos anos que antecederam 1914.
Em 28 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, foi assassinado em Sarajevo por um nacionalista sérvio-bósnio ligado a um grupo secreto que buscava a união dos povos eslavos do sul. O que poderia ter permanecido uma crise regional se transformou rapidamente em conflito continental por causa do sistema de alianças: a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia, a Rússia mobilizou tropas em apoio aos sérvios, a Alemanha declarou guerra à Rússia e depois à França em apoio aos austro-húngaros, e a Grã-Bretanha entrou no conflito após a invasão alemã da Bélgica neutra. Em questão de poucas semanas, todas as grandes potências europeias estavam formalmente em guerra.
O Tratado de Versalhes, assinado em 1919, impôs à Alemanha derrotada pesadas reparações financeiras e a humilhante “cláusula de culpa de guerra”, que atribuía à Alemanha sozinha a responsabilidade moral e legal pelo conflito — uma condição que a população alemã considerou profundamente injusta. Impérios inteiros que existiam havia séculos ou décadas — o austro-húngaro, o russo (já derrubado antes pela Revolução de 1917), o otomano e o próprio império alemão — desmoronaram completamente, redesenhando o mapa político da Europa e do Oriente Médio com a criação de vários novos países.
💡 Você sabia? As duras condições impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes ajudaram a criar o ressentimento que, duas décadas depois, alimentaria a ascensão do nazismo.
O historiador australiano Christopher Clark, em Sonâmbulos: Como a Europa Foi Parar na Guerra em 1914, propõe uma imagem marcante: os líderes europeus não escolheram deliberadamente a guerra, mas “caminharam como sonâmbulos” rumo a ela, através de uma cadeia de decisões mal calculadas, desconfianças mútuas e falhas de comunicação entre as potências — nenhuma nação teria planejado friamente aquele desastre.
A historiadora canadense Margaret MacMillan, em 1914: De Paz a Guerra, examina o mesmo período pré-guerra, mas dá peso maior às escolhas pessoais dos líderes: para ela, embora as alianças e o militarismo criassem condições perigosas, ainda havia margem para decisões diferentes em vários momentos da crise de julho de 1914 — a guerra não era um destino inevitável escrito de antemão.
Já o historiador militar britânico John Keegan, em A Primeira Guerra Mundial, desloca o foco das causas para a própria experiência do conflito: sua obra reconstrói em detalhe a guerra de trincheiras, as novas tecnologias (metralhadoras, gás, artilharia pesada) e o custo humano sem precedentes, argumentando que entender “por que” a guerra começou é menos revelador do que entender por que ela se tornou tão mortífera e duradoura.
Este resumo se apoia, entre outras fontes, em três referências centrais sobre a Primeira Guerra Mundial: