A Reforma Protestante foi um dos movimentos mais transformadores da história europeia. Iniciada em 1517 pelo monge agostiniano alemão Martinho Lutero, provocou uma ruptura definitiva na Igreja Cristã Ocidental, que até então se apresentava como uma instituição unificada sob a autoridade do papa de Roma. Em poucas décadas, o mapa religioso da Europa foi redesenhado, e as consequências políticas, sociais e culturais dessa divisão moldaram profundamente o mundo moderno.
Para entender a Reforma, é preciso compreender o estado da Igreja Católica no início do século XVI. A instituição havia acumulado enorme poder e riqueza ao longo da Idade Média, mas enfrentava críticas crescentes por sua corrupção. O papa Alexandre VI (1492–1503), da família Bórgia, era notório por seu nepotismo e vida dissoluta. O papa Júlio II (1503–1513) liderava exércitos pessoalmente e gastava fortunas em obras de arte. A prática de simonia — venda de cargos religiosos — era generalizada. E, o mais importante para Lutero, a venda de indulgências — documentos que prometiam redução do tempo de punição das almas no Purgatório em troca de dinheiro — havia atingido níveis escandalosos.
O pregador dominicano Johann Tetzel percorria a Alemanha vendendo indulgências com a frase: “Assim que a moeda no cofre tilintar, a alma do Purgatório sairá voando.” Foi precisamente essa prática que empurrou Lutero à ação.
Martinho Lutero (1483–1546) nasceu em Eisleben, na Saxônia, filho de um minerador que sonhava vê-lo advogado. Em 1505, após sobreviver a uma violenta tempestade, fez um voto e tornou-se monge agostiniano. Tornou-se professor de teologia na Universidade de Wittenberg em 1508 e mergulhou nos estudos bíblicos.
Em 31 de outubro de 1517 — data que os protestantes celebram como o “Dia da Reforma” —, Lutero teria afixado suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. O documento era uma lista de proposições teológicas, escritas em latim, convidando ao debate acadêmico sobre as indulgências e outros abusos eclesiásticos. Graças à recém-inventada imprensa de Gutenberg, as teses foram traduzidas para o alemão e espalharam-se pela Alemanha em semanas — e pela Europa em meses.
Os princípios fundamentais de Lutero podem ser resumidos em duas fórmulas latinas:
Em 1521, Lutero foi convocado pela Dieta de Worms — assembleia do Sacro Império Romano presidida pelo imperador Carlos V — para retratar-se. Recusou-se com as famosas palavras: “Aqui estou. Não posso agir de outro modo. Que Deus me ajude.” Excomungado pelo papa Leão X e declarado fora da lei pelo imperador, foi protegido pelo príncipe Frederico III da Saxônia no castelo de Wartburg, onde completou a tradução do Novo Testamento.
João Calvino (1509–1564) foi o segundo grande reformador protestante. Teólogo francês radicado em Genebra, desenvolveu uma versão mais sistemática e rigorosa do protestantismo que ficou conhecida como calvinismo. Sua principal obra, as Institutas da Religião Cristã (1536), é um dos textos teológicos mais influentes da história.
O calvinismo distinguia-se pelo conceito de predestinação: Deus já havia determinado, desde antes da criação do mundo, quais almas seriam salvas (os “eleitos”) e quais seriam condenadas. Os humanos nada podiam fazer para alterar esse destino — mas o sucesso material e a conduta virtuosa eram sinais visíveis da graça divina. Essa ideia, ironicamente, estimulou uma ética de trabalho árduo, frugalidade e reinvestimento dos lucros que o sociólogo Max Weber, no século XX, identificaria como a “ética protestante” fundadora do capitalismo moderno.
O calvinismo espalhou-se pela França (onde os adeptos eram chamados de huguenotes), pelos Países Baixos, pela Escócia (onde o reformador John Knox fundou a Igreja Presbiteriana) e por partes da Alemanha e da Polônia.
Na Inglaterra, a Reforma teve uma origem inusitada. O rei Henrique VIII (1509–1547) era, inicialmente, fervoroso defensor da Igreja Católica — o papa até lhe concedeu o título de “Defensor da Fé”. Mas quando o papa Clemente VII recusou-se a anular seu casamento com Catarina de Aragão (pressionado pelo imperador Carlos V, sobrinho de Catarina), Henrique reagiu rompendo com Roma.
O Ato de Supremacia de 1534 declarou o rei da Inglaterra “Supremo Chefe da Igreja de Inglaterra” — a Igreja Anglicana. Monastérios foram dissolvidos e suas terras confiscadas pela Coroa. Tomas More, que se recusou a reconhecer a supremacia real sobre a Igreja, foi executado em 1535. O anglicanismo manteve muitos elementos católicos na liturgia, diferenciando-se sobretudo na questão da autoridade papal.
A Igreja Católica não ficou inerte. Sua resposta ao protestantismo ficou conhecida como Contrarreforma (ou Reforma Católica), e teve dois instrumentos principais:
A divisão religiosa da Europa gerou décadas de conflitos sangrentos:
As consequências da Reforma Protestante foram profundas e duradouras: