O Iluminismo dominou a vida intelectual europeia — especialmente na França, mas também na Inglaterra, na Escócia e nos territórios alemães — ao longo do século XVIII, defendendo a razão humana como instrumento capaz de investigar e melhorar todos os campos da vida, contra superstições, fanatismo religioso e o exercício arbitrário do poder que caracterizava o absolutismo, já visto na página anterior. Os pensadores iluministas propunham liberdade individual, tolerância religiosa e igualdade perante a lei como princípios universais, aplicáveis a qualquer sociedade — uma ideia radical em um continente ainda organizado, na maior parte, por privilégios hereditários de nascimento.
Editada por Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert entre 1751 e 1772, a Enciclopédia, ou Dicionário Razoado das Ciências, das Artes e dos Ofícios, reuniu contribuições de dezenas de pensadores iluministas para organizar todo o conhecimento humano disponível em 28 volumes, cobrindo desde ciências e técnicas artesanais até filosofia e política. Era também, e sobretudo, um projeto político: ao tratar temas religiosos e políticos com o mesmo método racional e crítico aplicado às ciências naturais, a obra desafiava diretamente o monopólio que a Igreja e o Estado absolutista tentavam manter sobre o que podia ser pensado, discutido e publicado — o que lhe rendeu perseguições, censura e a proibição temporária de sua publicação na França.
💡 Você sabia? A Enciclopédia foi uma das precursoras da ideia de que o conhecimento deveria ser público e acessível a todos — um princípio que está na base da educação pública e, hoje, da própria internet.
O filósofo alemão Ernst Cassirer, em A Filosofia do Iluminismo, defende que o traço unificador do movimento não era um conjunto fixo de doutrinas, mas um método: a confiança na razão como ferramenta para investigar e reorganizar todos os campos do conhecimento, da política à religião, da ciência à moral.
O historiador americano Peter Gay, em The Enlightenment: An Interpretation, reforça essa ideia de um projeto coerente: para ele, os filósofos iluministas formavam uma espécie de “família” intelectual, unida pelo uso da Antiguidade clássica e da ciência moderna para questionar a autoridade da Igreja e defender o progresso humano — o que Gay chamou de uma “recuperação de confiança” (recovery of nerve) da razão humana.
Já o historiador britânico Jonathan Israel, em Radical Enlightenment, questiona essa visão de unidade: ele propõe que existiram, na verdade, dois Iluminismos — um “moderado”, representado por Voltaire e Locke, que buscava conciliar razão com religião e monarquia; e um “radical”, inspirado em Spinoza, verdadeiramente revolucionário, democrático e materialista, que segundo Israel foi o principal responsável pelos valores seculares modernos, embora tenha recebido menos atenção histórica que o moderado.
Este resumo se apoia, entre outras fontes, em três referências centrais sobre o Iluminismo: